Quinta-feira, Setembro 07, 2006

INSTINTO

Fernando Furlanetto Galuppo, JULHO/2001.


SINOPSE:

Em Instinto, o "leitor-internauta-curioso", ávido pelo conhecimento da estranheza da psique alheia, fará profundo mergulho na intimidade do personagem José Pedro, cujos inquietantes pensamentos digressivo-filosóficos tiveram início somente em uma festa à fantasia para a qual fora "convenientemente" convidado.
Tudo em analítica, crítica - e muitas vezes poética - conversa consigo mesmo.
O enredo se dá quase que completamente durante a festa: local em que o narrador-onisciente-em-primeira-pessoa acaba por conhecer e se integrar a uma ordem secreta que busca atingir a perfeição humana.
A profundidade em que o personagem entra nos objetos, nas pessoas, e nos valores da vida, nos mostra o evidente monólogo interior do presente texto, desnudando desde o lado “hipócrita, fétido, e podre” da sociedade, às mais “nobres e pueris essencialidades” da vida entre os homens.
Instinto é para ser lido e "apreciado" por aquele indivíduo que já esgotou todos os romances de sua velha estante; pois não é obra indicada por grandes nomes ou "magos" da mídia; não traz consigo citações elogiosas de grandes jornais ou revistas; e já fora recusado por duas editoras, que, "...apesar de acharem a obra muito interessante, já estavam com suas pautas de pretensões editoriais preenchidas".
Aos fieis admiradores de desconhecidas entrelinhas críticas e irônicas que insistirem em avançar à esta sinopse, adverte-se-lhes, de plano, que, na presente leitura, nada mais encontrarão que a secreta e ininteligível poesia existente dentro do silencioso pensamento humano.



INSTINTO

Ilustre taça de vidro esverdeado. Champagne. Pequenas folhas de louro saboreadas à luz da sorte. Uma estima por futuros prósperos. Ternos finos. Alvos vestidos com cortes ditados à regra da constante mudança; à regra do consumo; à regra da transferência do negociável poder em suas contas bancárias. Eu? Quieto; franzino. Penso por um instante. Nas garrafas de champangne, nas pessoas que dançam: algumas belas, outras não. Penso no blazer que a mim foi emprestado ao entrar nesta festa alegre. Alegre e, no entanto, hipócrita (ao menos em parte): “- Aceita carpaccio, senhor?”. “- Mais tarde, obrigado!” É claro! As línguas sempre se misturaram. Constroem nada mais que neologismos umas para as outras. De modo a servirem de alicerce à constante mudança. É notório como 'o novo' sacia nossa sede! O 'falso novo', ou mesmo o 'novo verdadeiramente novo'. Até mesmo o arcaico quando, justamente por isso, faz-se diferente do tradicional. Não aceito o que me oferecem! Jantarei mais tarde! Vejo que o futuro nada mais é do que um simples referencial. Todos os povos vivem simultaneamente séculos de diferença. Povos medievais e futuros. Sublime coexistência atemporal. Sublime coexistência de tempos, ideias, valores, paixões. Vejo um grupo conversando. Vejo que um homem de cabelos grisalhos lidera o assunto. Tem poder. Vê-se que é alguém importante, vários lhe escutam atentamente. Pede ao garçom que a seus amigos traga de beber e comer. Quer que estejam à vontade: “- Um drink, senhor?”. “- Obrigado, mas não quero beber hoje!”. Não aceito o que me oferecem. De forma alguma que por causa do remédio que tenho tomado ultimamente. Estou pouco me importando com estes inúteis medicinais. Mas não os aceito porque vejo que, assim procedendo, posso pensar por uns instantes. Tecnologias futuras, satélites, ondas que nos cruzam o cérebro “sem” nos afetarem de fato. Vírus e bactérias produzidas em laboratório para controlarem massas. Meios de comunicação para nos controlarem as ideias. Cantamos juntos as mesmas canções: as que falam de amor, de tristeza, de alegria, de esperança. Todas que falam de sentimentos; nenhuma que nos desperte o senso crítico. Que nos coce a cauda da razão. Esperança não é "aguardar", mas não cessar à luta pelo desejo. É aguardar na ação. Satélites, ondas sonoras, gravações. Quem nos garante a liberdade de expressão? Quem nos garante um suposto sigilo telefônico? Quem nos garante que o refrigerante que bebemos também não sirva para nos controlar de alguma forma? Quem nos garante que nossas digitações não são todas monitoradas na grande rede? Paranoia? Não, delírio momentâneo. Também sou como eles: penso mais do que vivo. E é por isso que estas pessoas que hoje vejo em minha frente como uma massa controlável, como elementos de uma grande matriz natural, como elementos aritméticos de um referencial temporal atrasado, como trabalhadores-incondicionais condicionados a uma nobreza temporalmente evoluída, e, por fim, como verdadeiras cobaias científicas, são o espelho no qual vejo a mim mesmo. Sou parte dessa gente. Talvez seja-lhes o rim. O pâncreas. O intestino-delgado, quem sabe. Algum órgão de pouca expressão estética. A cólica do pensamento. O esfincter dos ossos. A labirintite do meu próprio pensamento.
Máquinas; controle das massas através do então censo-liberal cinema; através do culto ao “mesmismo” e ao falso novo. Propagandas, incentivos, cores e sons! Não aceito o champagne, definitivamente! Vejo que não bebi nada até agora e que nesta noite posso pensar. Usar meu senso crítico! Grito em meu pensamento: “- Nesta noite não lhes deixarei conter minha crítica!” Pois faço-na apenas em minha mente! Deve ter havido algum problema no monitoramento de seus satélites, pois consigo criticar-lhes! Não é estranho? Não posso evitar as ondas sonoras que desenvolveram para nos tranquilizarem! Mas nego-lhes, pelo menos por hoje, a coca-cola que nos servem! Quero pensar! Mal ouço a voz daquele homem de linho listrado, sentado ali adiante. É quieto, não conversa muito. Por incrível que pareça ecos de meu pensamento dizem ser ele no passado um dos mais animados desta festa! Não agora, porém. Conversamos no começo da noite quando fomos apresentados. Lembro-me. Vaga lembrança. Noutra roda, resolvi perguntar à sua irmã sobre seu passado, pois tive a impressão de já conhecê-lo de longa data. Era inteligente. Falava outras línguas. Tocava violão. Jogava futebol. Lia. Era importante para muitas pessoas. Dizem, pelo menos. Chegou a participar de movimentos estudantis, mas nunca fora pego. Era esperto. Talvez fosse um pulmão. Uma artéria. Uma jugular. “- Teve sorte!” - dizia a irmã. Talvez os métodos hoje sejam outros. Talvez seja por isso que vivamos numa aparente sociedade sem censura e repressão. Clonagem, bebês de proveta, o ser humano perfeito! Curas de doenças. Novas doenças! Imagens momentâneas, retinas lentas! Persuasão! Controle das massas! A sociedade se segmenta. Como o sempre. Divide-se pelo critério “poder” nesta festa, da mesma forma com que o faz no mundo como um todo. E esta nobreza líder, sua maioria encontrada numa única potência mundial da América, mantém-se com seus antídotos, proteções e privilégios. Sobrevivendo “antropofagicamente” às nossas custas. Volto a lhes falar. Logo terei de comer e beber, senão passo fome! Conseguirão me controlar! Sim, devo admitir! Mas sei que por um pequeno instante não foram perfeitos! Alguma parede ou coluna protegeu meus ouvidos de suas silenciosas ondas que me mandam calar. A partir de agora aproveitarei a festa. Continuarei a trabalhar. Continuarei a consumir seus produtos, suas ideias e seus entretenimentos que em minha face são esfregados. Mas saibam que minha tranquilidade repousa na manjedoura de suas imperfeições! A seleção natural ou alguma mutação genética - das quais sois grandes especialistas - ainda farão nascer uma nova ordem. Uma ordem que terá em suas mãos as ofertas de substituição de seus cargos, e que simplesmente as negará. Negará pela própria força do novo que sempre se mostrou no ser humano, e que nele sempre se mostrará. Negará pela própria força de espírito que há de fazer nossa glória!
“- Pedro, vem sentar com a gente! O jantar já vai ser servido. De entrada vamos ter salmão com champignons, e raízes terapêuticas orientais. Uma delícia!”. É, acho que já está na hora de abdicar aos meus delírios momentâneos, senão, como disse, passo fome. E a fome é, instintivamente, a mais física e intransponível ânsia humana pela constante evolução. Neste caso, através da evolução física corporal. Uma evolução referencial que, na primavera de nossas vidas se faz através do crescimento, e no inverno, através da luta contra o decrescimento. Sentamos todos à mesa. Nada me parece tão anormal. Vejo que estão todos muito elegantemente vestidos. Não que não se possa dizer "bem vestidos", mas é mais escorreito dizer estarem “elegantemente vestidos”, o que é diverso em demasia. Julgo que estivessem “bem vestidos” se estivessem confortáveis, mas não sinto por seus olhares que estejam necessariamente "confortáveis". "Belíssimos brasões" que, trançados sobre suas vestes, tornam tão mais valiosos, os tecidos de linho, e seda, e camurça, e couro, que cobrem os corpos fracos e frágeis, e de pouca cor. "Casulos paradoxais" que talvez, mesmo que externamente acinzentados, estejam realmente guardando belas e coloridas borboletas. Mas a recíproca é verdadeira. "Borboletas"! Isso me resgata lembranças de que os machos são mais belos que as fêmeas em quase todas as espécies! Pense na juba do leão. Na força dos búfalos. Nas cores das aves de rapina. Na cauda do pavão. Na robustez e mistério do lobo em relação à loba. Na cor da cauda de alguns alevinos. Pense também na plumagem e na crista do galo; e na incontestável superioridade da beleza de suas canções. "Borboletas"! Há, porém, duas exceções que contrariam a regra da guerra da beleza entre os sexos. As fêmeas são mais belas que os machos no caso das borboletas, e no caso do ser humano. Sim, mais uma vez encontramos uma regra com suas incontestáveis exceções. Regras! É impressionante o como as mais perfeitas regras são as principais detentoras das mais ocultas exceções. E "por que"? Eis a questão. Responda o anglo-poeta. Ou quem não seja a cólica do pensamento. Responda, poeta, por que Vênus é o único planeta com rotação em sentido horário, contrariando a regra de todos os demais? Isso os sonetos não dizem. Mas basta com roupas, beleza entre os animais, regras e exceções! Tenho essa mania, às vezes, a mania de entrar a fundo nas coisas, nos objetos, nas pessoas. Manias peristálticas de entrar nas imagens, e cores, e sons! Tenho um belíssimo prato em minha frente com vários homens cordiais, e fico aqui, tolo, divagando no oculto das coisas ao meu redor. Mas que fazer se sou assim? É minha natureza. Divago mesmo. E já encontrei ao longo de minha vida aqueles que não se identificaram comigo por este motivo, bem como os que viam beleza e semelhança nesta característica de buscar sempre o novo, mesmo que em pensamento. Lembro-me de uma vez, quando criança, que estava a brincar sob um ipê. Estávamos prestes a construir uma base infanto-militar em baixo de uma bela árvore que, por si só, já nos serviria de abrigo. Abrigo contra o que? Nada. Enfim, havíamos trabalhado durante toda a tarde na coleta de materiais para a construção.
Ao por do sol, simplesmente trocamos nosso sonho de construção pela fugaz vontade de jogar o velho vídeo-game caseiro, e nem tanto cansativo. Nunca terminamos aquela base. Somente outras, tempos depois. Mas aquela, especificamente, fora simplesmente esquecida. Por que?
Eis a questão novamente. Por que? Creio que construímos o que precisava ser construído ao seu tempo. Não vejo melhor explicação. Hoje vejo que esta base não podia, e nem jamais poderá, ser terminada. Pura e simplesmente porque aquela incompletude foi a função de sua existência, seu papel na ciência plena de si (e dentro de nós, que a realizamos em sonho). O jantar começa! As pessoas todas começam a comer delicadamente, e numa tal formalidade, que expressa a regra de que matemos nossa fome, sem necessariamente externarmos a fome, que é real em demasia. Hipocrisia completa desta vez? Quem sabe. Talvez sim, talvez não.
Não podemos sair julgando as pessoas só porque comem fingindo querer não comer. Talvez seja algo que as afaste de sua plenitude de espírito, mas não nos cabe a prolação das regras alheias. Cada um é o único tutor de suas regras pessoais. Devo admitir, sem obstar, que a comida é realmente saborosa. Só não vejo tanta cor ou gosto nestes nobres alimentícios que as pessoas fazem questão de lembrar seus tão difundidos e caríssimos valores. Creio que meu prato até se assemelhe à carne bovina cotidiana; ao pão francês caseiro; e ao feijão com arroz que como todos os dias: “- Salmão? Vocês têm certeza de que estamos comendo salmão, e não um almoço normal?” - Pergunto em voz baixa, de modo que tão somente eu próprio possa ter ouvido a mim mesmo. Sim, salmão! Por que não? Se eu quiser, posso fazer com que essa comida seja carne, soja, escargots, minha deliciosa sopa de talharim, ou mesmo o delicioso pescado alaranjado. Por que não salmão, no dia de hoje? Sim, é salmão, definitivamente! Eu quero que seja! E a mim isto basta. Que para os outros seja o que quiserem. Para mim é salmão. Márcia come tão deliciosamente e com tanta apreciação ao prato de cor forte que até sinto como se cometesse uma agressão à sua felicidade se ousasse não querer que fosse salmão: “- Pedro, temos que fazer essas receitas mais vezes, hein?”.
“- Sim, Márcia! Vamos fazer sim. Lembre-me depois que peço à Dona Adelina que nos faça sempre! Você gosta muito, não é?”. “- Gosto sim!”. Coitada da Márcia, nunca vi alguém apreciar tanto um prato oriental como minha irmã. Vou mandar fazer sempre para que ela aprecie e para que, desta forma, possa sentir este prazer gustativo que quase me leva a apreciar junto. Comer faz parte da natureza dela! Feliz da Márcia que abdica à vaidade da robustez tão fortemente enraizada nas outras moças de vinte anos, em troca do que - para ela - seja a própria razão do existir. É sua natureza. Márcia sempre gostou de comer; apreciar um bom prato; degustar a taça de um bom vinho italiano; provar um suave champanhe francês; uma torta doce alemã; sorvetes e porções em geral. Tal como o Beto, nosso irmão mais velho, que sempre apreciava usar roupas escuras; jaquetas de couro; jeans claro rasgado nas bordas; vez ou outra um lenço branco à cabeça; ouvindo seu Oscar Peterson, Ray Vaughan, Clapton ou Matthew’s Band. De pensar que muitos olhavam-no como bravo e perigoso. Embora rebelde, de perigoso não tinha nada. Sempre foi alegre e brincalhão: em casa ou fora dela.
Mistérios do subconsciente. Verdades ausentes. Onipresença do todo, da vida.
E do infinito improvado. Eu, José Pedro, pública e particularmente, já vivi alguns anos. Pouco mais de vinte, para ser mais preciso. Já posso dizer que diversas coisas pude presenciar no decorrer de minha vida. Grandes sentimentos, sofrimentos, alegrias, decepções, medo, coragem, surpresa, tédio, raiva, luz, calma, tranquilidade, inquietude, angústia, proteção, solidão, e a melhor de todas as vivências: a visão do novo! Devo dizer que são relativos, obviamente, todos esses fatores na vida de qualquer homem. Uma das mais importantes máximas humanas talvez seja o heroísmo que, por força de nosso instinto, somos impelidos a ter de apresentar aos nossos semelhantes. Está genético-moralmente estabelecida em nosso ego, a necessidade de provar aos nossos semelhantes, que muito nos destacamos da mediocridade. E é exatamente por aqui que pretendo começar minha tese; meu monólogo anti-metodológico e descontínuo da análise do que seja a vida; do que seja o homem; de quem somos; e, por quê, somos. Pretendo começar pela raiz de nossa existência, mesmo que para isso tenhamos que descer ao fundo do poço. Descer ao podre; ao fétido; ao escárnio da humanidade. Minha intenção não é a de dividir o ser humano em diferentes camadas geológicas, ou colocá-lo em túneis subterrâneos distintos, como o fez de forma esplêndida o outro poeta, italiano. Também não pretendo sequer imaginar como deva ser o paraíso. Auto-contradição a especulação de que tal lugar nos ser visível aos olhos.
Começarei, portanto, pelo primeiro de nossos pecados, e nossa primeira dor: o nascimento!Por razão que desconhecemos, em um determinado dia somos convocados a chorar e a sentir um mundo novo. Um mundo repleto de fenômenos desconhecidos. Daí deriva nosso medo inicial: o medo do desconhecido. Nada conhecemos ou compreendemos. Todo o possível àquele momento é o “sentir” das coisas, nada além. Nesse desabrochar das almas é simplesmente o perceber das coisas ao nosso redor que nos rege toda a razão do nascimento. Daí a grande diferença entre as principais essencialidades humanas do nascimento para a fase adulta: quando crianças, não compreendemos exatamente as coisas, mas podemos senti-las ao nosso redor. Aí nos é possível a percepção das sensações físicas externas, internas e sensoriais. Alguns de nós, já nos primeiros suspiros de vida, têm a má-sorte de experimentar a dor corpórea de forma avassaladora. Não questionarei aqui por que alguns são escolhidos para determinadas situações do ocaso, e outros não. Isso geraria anos, em vão, das mais coerentes filosofias humanas. E a ideia de minhas reflexões talvez seja justamente mostrar que não pretendo mostrar nada. Isso mesmo! Qualquer que seja a mensagem de uma obra ou pensamento alheios, efeito algum terão sobre seus receptores se tal mensagem já não residir, mesmo que de forma embrionária, oculta e subconsciente, no interior de quem os recebe. Que tirem, entretanto, desta história, a conclusão que lhes for mais plausível em sua respectiva realidade, seu específico contexto de vida e morte, porque a intenção aqui não será mostrar que haja, ou não, o ideologicamente correto. Queiramos ou não, jamais poderemos nos definir como detentores de uma determinada verdade. A auto-definição é ciência divina e, se pertencêssemos ao topo da divindade, estejam certos de que saberíamos disso. Sabemos?
Não pretendo também criticar ideias sociais, religiosas, políticas ou filosóficas. A filosofia é falha! E é falha justamente por ser padronizada como a “ciência conjunta”, a “ciência das ciências”. Somos seres distintos por natureza. Portanto lhes digo, mesmo que de forma ousada e pretensiosa, que a "ciência das ciências” simplesmente não existe. Não em nosso grau de compreensão. E não sei se algum dia ela nos vai existir. Um menino de cinco anos tem sua filosofia; o general sanguinário a sua; o monge budista a sua; tal como um suicida; um benfeitor; um assassino; ou um nômade guerreiro em busca de uma glória inexorável.
A beleza jamais poderá ser vista por aqueles que não sentem dor, e que dela não saibam extrair seu sopro de divindade. Um sopro sábio e mudo, que canta em nossos ouvidos numa língua estranha, embora coesa, da qual pouco conhecemos. Irônico? Sem dúvida!
Mas a própria ironia tem se mostrado uma ciência de sabedoria divina.
E é por isso tudo que penso em meus irmãos, Beto e Márcia, sem procurar julgá-los; sem criticar-lhes ou repudiar-lhes por qualquer característica psicológica ou cultural que tenham decidido assumir. Ou mesmo com as quais já tenham vivido desde a data de seus nascimentos. Beto é o que é pela sua essência, e não pelo que usa, ou pelo que ouve. Beto é o que é, pelo que busca em sua vida. Por como enxerga e vive a mesma. Beto é o que é, pelo que é! Asfaltos multi-direcionais, caminhos longínquos. Singulares decisões. Pseudos-maniqueismos que atravancam as visões daqueles que os veem. É por este e tantos outros motivos que eu, dentro deste baile de máscaras que resolvi entrar hoje, tenho dançado tão pouco e observado em demasia. Justamente por encontrar muitos Betos; e Márcias; e Pedros; e até mesmo Joãos e Marias, que, com suas singulares distorções, mostram-se como as tantas personalidades deste mundo podre e, ao mesmo tempo, belíssimo. Personalidades implícitas ou explícitas que jazem sobre as camas de nossos egos, no grande aposento de nosso ser. Algumas delas acordadas e efusivamente ativas; outras em sono profundo. Márcia está vestida de princesa.
Beto, como sempre, de motoqueiro. Um heterônimo um tanto quanto conveniente, que mais funciona autonimamente, para a situação. De que eu estou vestido? Não aluguei fantasia!
Nunca fui muito criativo para escolher personagens que se encaixassem aos meus dotes físicos ou psicológicos. Mais ou menos como aquelas pessoas de etnias "não-caucasianas" lato sensu, que acham "estranho" irem vestidas de Batman em festas à fantasia, "por não existirem Batman´s não-caucasianos". De igual modo, não admitindo determinados brinquedos aos seus filhos, com critérios similares. Ingenuidade? Quem sabe? Ainda bem que grande parte das pessoas não se incomoda com a prescindibilidade. O mais brilhante de toda esta história sangrenta da falta de alteridade mundial é que os verdadeiros heróis sempre foram aqueles que nunca fizeram questão de ser notados. E não as fanfarrãs figuras alegóricas e pseudo-heróicas do cinema hollywoodiano. “Entretenimentos que em nossas faces são esfregados”. Hoje entendo aquela ideia que me ficou incerta quando a recebi no princípio de minha adolescência: de que o maior poderio bélico norte-americano (“estadunidense”, como corrigiriam os detalhistas) localiza-se não na capital ou nas cidades militares, econômicas ou tecnológicas, mas sim em Hollywood. Exato, em Hollywood. Os verdadeiros heróis são aqueles que buscam aprender com heróis, e que, por mais que se esforcem, não conseguem se sentir como tais. Heróis verdadeiros, como estes, conheço brancos e negros; índios e orientais.
Basta analisarmos que Batman, por si só, é o próprio heroísmo branco em vestes negras. É o claro se tornando herói no escuro. Tal como em outras situações admiramos Bruce Lee, Machado de Assis, Einstein e algum real Macunaíma. É aí que compreendemos que é justamente no oposto, seja ele físico, sexual, intelectual ou emocional, que tendemos a destinar nossa admiração e nossa paixão - na sua forma mais sincera, bruta e pueril.
Águas mornas pouco efeito causam sobre a psique e ego humanos, mas o homem tende, involuntariamente, a se transformar em tudo aquilo que ama, e em tudo aquilo odeia; seja de forma direta ou indireta. E esta magia, ironicamente, ninguém vê. Ela simplesmente nos é imperceptível aos olhos. Talvez seja justamente por isso que admiro Beto. Por ser ele basicamente o outro lado de minha personalidade: aquele que estou pouco acostumado a expressar. Meu irmão Beto: negro; forte; alto; fugaz; seguro; esplendidamente hilário; e notadamente apaixonado pela vida. Minha irmã Márcia: branca; cabelos castanhos; olhos redondos e arregalados; bochechas grandes e rosadas; e um simpático e permanente sorriso estampado em seu rosto. Ela de princesa. Ele de motoqueiro “rebelde”.
E eu, apenas com uma máscara de lantejoulas pretas e brilhantes; juntamente com aquele blazer negro que a mim foi emprestado ao entrar nesta festa alegre. Alegre e "no entanto hipócrita", ao menos em parte. Sim, em parte. Muitas vezes não observamos o quão próxima está, semanticamente, a morte do nascimento; e padronizamos o segundo como uma benção, e a primeira como um feito abominável. Julgamos! Damos-nos ao luxo da criação de regras inflexíveis, entrando num estado de torpor moral e intelectual intensos até o momento em que nos fique clara a ideia de que nada obedece regra alguma.
Regras são padrões cíclicos observáveis por aqueles que assim denominam tais padrões.
Exemplificarei. Se cronometramos o sol por doze horas em um dia qualquer, e, se por uma semana repetirmos o experimento diariamente, calculando então a média de todos esses dias, teremos resultados “suficientes” para postularmos a regra de que "o dia dura doze horas ...e a noite, outras doze". Certo? Com o tempo vemos que nossa "regra" errônea nos manteve em paralisia intelectual envergonhável. Descobrimos que, para determinadas épocas do ano, as durações do dia e da noite não são as mesmas. Criamos, então, "nova regra" para cálculos diferentes em períodos diferentes. Entretanto, envergonhamo-nos novamente ao vermos que, de forma estúpida, nos esquecemos dos importantíssimos fatores latitude e longitude. A vida é assim. Cheia de regras! Cheia de regras que nos atravancam; que nos engolem como areia movediça! Evoluímos quando as quebramos! Quando as destruímos, nossa visão, conhecimento e poder, aumentam de forma assustadora. Portanto, não utilizemos a ferro e fogo a inflexível regra do "julgamento humano". Desenrosquemo-nos deste instinto do pré-julgamento que tanto nos cresce ao corpo, como a hera ao muro. Não classifiquemos distintamente: o menino de cinco anos; o general sanguinário; o monge budista; o suicida; o benfeitor; o assassino; ou o nômade guerreiro. Quando por questões cíveis ou sociais formos obrigados a "julgar" um homem, que não o façamos pelos seus atos, mas por suas razões. E que, assim sendo, tentemos adentrar à sua realidade, a fim de que cheguemos "mais perto" dos sentimentos que teve ao realizar a julgada ação. Nenhum homem é inteiramente bom e nenhum homem é inteiramente mau. Já vos disseram isto, não é mesmo? Pois aqui vos repito.
A bondade e a maldade são conceitos vinculados às realidades daqueles que precisam destes conceitos para a transmissão de suas ideologias. Como diria o filósofo hindu Kautilya no século 3 a.C.: “Não se deve ser direto demais. Veja a floresta. As árvores retas são cortadas,
as retorcidas permanecem de pé”. Todos temos imperfeições. Todos temos alguns galhos retorcidos. “Singulares Torções”. Isto molda nossa singularidade. Aqueles que disserem que não têm imperfeições, jaz em ato duas delas: a cegueira, e a falsa auto-definição. E quem aqui pode nos dizer quem é bom ou mau? Santo Agostinho diria que a maldade nada mais é que a ausência da bondade.

[…]
Continua.


* A ausência de paragrafação durante todo o conto é intencional e tem significado simbólico pela mensagem subliminar da obra.


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