- Estás com sono?
- Não senhor.
- Nem eu; proseemos um pouco aqui na varanda. Que horas são?
- Duas e meia.
- A festa estava uma delícia! Somos gratos de nos esperarem acordados, além da hospedagem por dias.
- Que é isto, tio! É sempre prazer nosso!
- Enfim, chegaste aos teus quarenta e cinco anos! Há quarenta e cinco anos, do primeiro dia, do quarto mês, do ano de mil novecentos e sessenta e dois, vinhas à luz, ligeiramente prematuro, um pirralho de nada, e estás aí: longos bigodes, pai de três filhos, vários namoros, um bom casamento, duas Câmaras, uma Prefeitura.
- Titio...
- Não te ponhas com denguices e falemos como dois amigos adultos. Desliga este computador a fim de dares maior atenção a teu tio, pois vou te dizer coisas importantes, dentre elas meu testamento. Senta-te e conversemos.
- Claro! Gelo, tio?
- Dois! Agradecido.
- Prossiga, por favor...
- Falava de ti... de teus louros... Formaste família, adquiriste um belo diploma, consequentemente, uma carreira a que se possa chamar “próspera”, etc. Parabéns! “Quarenta e cinco anos” bem vividos, meu rapaz, bela idade!
- Obrigado, tio!
- Mas idade esta que forma apenas a segunda sílaba do nosso destino. Muitos famosos ainda não eram ninguém aos quarenta e cinco anos, lembra-te sempre disto! Afora o número, quaisquer que sejam as próximas sílabas das tuas escolhas, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável. Meu desejo é que te levantes acima da obscuridade comum, só isso, nada além. A vida, Tavinho, é um grande cassino, e os prêmios são poucos, ...ou para poucos. Isto é a vida, pura e simplesmente! “[...]Não há planger, nem imprecar...”, como diria alguém, em algum lugar, mas, tão somente “...aceitar as cousas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.”
- Sim, senhor.
- Entretanto, assim como é de boa economia guardar poupanças e aliados para teus próximos anos, também é de boa prática social acautelar teus desafetos para o ocaso de outras estações futuras incertas. É este o meu testamento para ti: os mais preciosos aconselhamentos para os dias - muito próximos - de tua derradeira prosperidade.
[…]
Continua.
- Não senhor.
- Nem eu; proseemos um pouco aqui na varanda. Que horas são?
- Duas e meia.
- A festa estava uma delícia! Somos gratos de nos esperarem acordados, além da hospedagem por dias.
- Que é isto, tio! É sempre prazer nosso!
- Enfim, chegaste aos teus quarenta e cinco anos! Há quarenta e cinco anos, do primeiro dia, do quarto mês, do ano de mil novecentos e sessenta e dois, vinhas à luz, ligeiramente prematuro, um pirralho de nada, e estás aí: longos bigodes, pai de três filhos, vários namoros, um bom casamento, duas Câmaras, uma Prefeitura.
- Titio...
- Não te ponhas com denguices e falemos como dois amigos adultos. Desliga este computador a fim de dares maior atenção a teu tio, pois vou te dizer coisas importantes, dentre elas meu testamento. Senta-te e conversemos.
- Claro! Gelo, tio?
- Dois! Agradecido.
- Prossiga, por favor...
- Falava de ti... de teus louros... Formaste família, adquiriste um belo diploma, consequentemente, uma carreira a que se possa chamar “próspera”, etc. Parabéns! “Quarenta e cinco anos” bem vividos, meu rapaz, bela idade!
- Obrigado, tio!
- Mas idade esta que forma apenas a segunda sílaba do nosso destino. Muitos famosos ainda não eram ninguém aos quarenta e cinco anos, lembra-te sempre disto! Afora o número, quaisquer que sejam as próximas sílabas das tuas escolhas, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável. Meu desejo é que te levantes acima da obscuridade comum, só isso, nada além. A vida, Tavinho, é um grande cassino, e os prêmios são poucos, ...ou para poucos. Isto é a vida, pura e simplesmente! “[...]Não há planger, nem imprecar...”, como diria alguém, em algum lugar, mas, tão somente “...aceitar as cousas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.”
- Sim, senhor.
- Entretanto, assim como é de boa economia guardar poupanças e aliados para teus próximos anos, também é de boa prática social acautelar teus desafetos para o ocaso de outras estações futuras incertas. É este o meu testamento para ti: os mais preciosos aconselhamentos para os dias - muito próximos - de tua derradeira prosperidade.
[…]
Continua.
[1] Este conto foi inspirado na “Teoria do Medalhão”, do escritor brasileiro Machado de Assis, em sua memória (http://www.usc.br/edusc/bienalsp/pdfs/t-medalhao.pdf).
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