Terça-feira, Abril 17, 2007

"MEU PAI É..."

"MEU PAI É..."
F.F.G., 10.08.2006.

Meu pai é picanha (picanha mal passada).
“Picanha Boi berrando”, como ele dizia.
Meu pai é também alcatra, maminha, fraldinha...
É costela bovina amarrada no espeto e fincada sobre uma fogueira
...é o matambre da costela.
(Deliciosíssima fina camada de pura carne,
próxima ao chamado “papel”, nas costelas bovinas).

Meu pai é bigode preto, cheio e clássico.
Barba sempre feita (bigode que nunca).

Meu pai é só não fazer a barba quando ia pescar e,
no ardente inverno sul mato-grossense, matar alguns banhos.

Esta é uma lição que aprendi com meu pai, aliás.
Que vez ou outra devemos matar alguns banhos.
Que vez ou outra devemos deixar de fazer a barba.
“Hoje atingi o limiar do “foda-se”, filho!” - dizia.
...
Meu pai é não dormir de meias nem a temperaturas baixíssimas.
(Não se sentia bem dormindo com meias. Que fizesse frio, não as punha).

Meu pai era estar sempre acompanhado de sua “capanga” de couro
(dentro de onde trazia tudo consigo).

Meu pai é usar camisa de botão com bolso
(sempre com o bolso cheio ao dobro de sua capacidade normal).

Meu pai é: “- DESLIGA ESSA MERDA, PELO AMOR DE DEUS!!!”, após escutar por umas quarenta vezes seguidas a música “Corazón Partio”, do cantor Alejandro Sanz, que havia sido esquecida no modo repeat, certa vez, num churrasco.

Tempos depois, já na Casa Verde Jurídica (e já sem meu pai) vim aprender uma frase de Rui Barbosa (modelo de urbanidade): “A tolerância só não é esgotável nos idiotas”. E, assim, aprendi que cada circunstância tem sua sabedoria interna.

Meu pai é um jogo “CORINTHIANS vs. PONTE PRETA”, em Campinas, no qual fora com um amigo (também corinthiano roxo). Ocasião em que, ao final do jogo, um grupo de ponte-pretanos os cercaram, obrigando-lhes a beijarem a camiseta do alvinegro rival.
(Consta que a evidente contragosto - mas por prudência – beijaram as camisetas).

Logo após, retornaram à casa de meu avô, apanharam os cachorros de raça fila que tínhamos na época, embarcaram as feras na caminhonete, voltaram ao local em que foram constrangidos e, surpreendentemente, aquele mesmo grupo não havia deixado o local.

Ecoa em minha mente o diálogo:
“- SE CORREREM SOLTAMOS OS CACHORROS! TODO MUNDO PARADO!!!...... VÃO BEIJAR AGORA, UM POR UM, A CAMISA DO CORINTHIANS!”
(Há testemunhas do fato!)

Aliás, o Corinthians também me é herança paterna.
Muito mais o Corinthians de Ronaldo (o Giovanelli), Neto, Viola e Tupãzinho, que o Corinthians holding dos dias atuais. Aprendi com isso também que o tempo passa e, feliz ou infelizmente, tudo muda.
...
..
.
Meu pai é vira-lata, é fox paulistinha, é fila, é dog alemão dinamarquês. Aliás, meu pai é já ter tido simultaneamente mais de quinze cachorros. E quanto a isso, é de meu pai a frase:
“Os cães são melhores que os homens porque, uma vez amigos, serão sempre amigos”.
...
Meu pai é Maverick(V8): dourado, marrom, verde-água e preto.
Meu pai é caminhonete prata cabine dupla indo nos buscar no Liceu.
Meu pai é um Mustang Mach One antigo.
E principalmente, meu pai é uma belina vermelha.
Sim, uma belina vermelha.
...
Meu pai é barco com motor de popa.
É sua lancha “Don Galuppo”.
E é “barco e lancha” porque é pesca, muita pesca.
Meu pai, aliás, é Pantanal como um todo!
É a cidade de Porto Murtinho; é a paraguaia Isla Margarita; é o Nabileque.
Quem aqui conhece isso, meu Deus?
Quem, aqui, conhece o Nabileque?
(Pequenino agrupamento humano próximo à Bolívia.
Exclusivo acesso hidroviário.)

Meu pai também é peixe:
Pacu, Piaus, Tucunaré, Pintado, Pirarucu, Piraputangas.
Sim, meu pai é peixe. Muito peixe!
“Peixe grande”.

Meu pai é isca! Isca de caranguejo. Isca de tuvira. “Isca de colher” (daquelas de inox espelhado, que refletem o sol dentro d´água fazendo os peixes pensarem se tratar de peixinhos menores).

Meu pai é farol silibin batendo em águas noturnas, e fazendo saltar pequenos lambaris suicidas que se lançam imprudentemente para dentro do barco.

Meu pai é vara de muitas nacionalidades: vara japonesa, vara americana, vara alemã.
E além de vara, meu pai é também: linhas, anzóis, chumbadas, e molinetes de amplo estoque!

Meu pai é: “BOA NOITE E VAI TOMAR NO CU, FILHO DA PUTA!”, em resposta ao “Boa Noite!” do Cid Moreira, ao final do Jornal Nacional!

Meu pai é canivete suíço vermelho, que sempre pedíamos para brincar. “Na frente dele”, na medida em que ainda éramos “muito novos”.

Meu pai é “fogos de artifício”! É “bomba mil”! É rojão! É vulcãozinho!
Meu pai é uma daquelas bolas azuis que estouram quando as jogamos ao chão.
Aquelas, cuja película de pólvora azul se gasta até não se poder usar mais (como o corpo, como o tempo, como a vida).
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De meu pai veio a frase:
“Há somente dois tipos de italianos: o sacerdote, e o mafioso. Eu, definitivamente, não sou o sacerdote!”

Meu pai é receber uma advertência arrogante de um fiscal de trânsito:
“- Criança é no banco de trás, viu!!!”.
“- Ele já tem treze anos! Pela lei, não é mais criança.”
“- Ham! Sei!!!”
“- Amigo, faça sua função, aí! Multe!!”

Consta que o “amarelinho” de pronto retirou a caneta do bolso e abriu o talão de multas.
O sinal se abriu e meu pai se foi (na ocasião o carro estava sem placa).
...
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Meu pai é: “Fernando, Raquel e Wagner, finjam que vocês têm educação!”

Meu pai é “Chiusa!”, quando almoçávamos!
(E outras frases e mensagens subliminares.)

Meu pai é muitas caretas!
(Sobretudo aquela, inexpressível por palavras.)

Meu pai é o vício-virtude do desapego material extremado (dava muitas coisas suas; até quando as precisava mais que seus presenteados).

Meu pai é roupa branca. É ouvir música clássica enquanto atendia seus clientes. (Meu pai era dentista, aliás.)

Meu pai é a frase: “Filho, passe toda semana num mesmo local da cidade e dê cinco reais a um mendigo. Depois de um tempo, passe no mesmo lugar e não dê nada, e sem falar nada; simplesmente passe. ...Ele virá atrás de você, agarrará seu braço, e falará:
“- Ei!!! Cadê os meus cinco reais?”"

Meu pai é a frase: “Minha mãe falava: "- Filho tenha pena do pobre, do fraco."”

Meu pai é a frase: “Meu pai, meu paizinho!” – quando viu seu próprio pai ir desta para melhor. Única vez que lhe vi chorar (registrei a cena).

Meu pai é cupim; é macarrão e lasanha feitos em casa! É leitoa assada (com limão); é pacu grelhado na folha de bananeira. Meu pai é “mais e mais” churrasco; é dobradinha; é sopa de músculo (com pedaços de couve rasgados à mão); é limonada; é suco de tamarindo; é melancia como sobremesa. É mocotó; é miolo bovino; é cabeça suína (hábito que, em toda minha vida, só encontrei em alguns descendentes de europeus, afinal, as guerras nos ensinam novos hábitos).

Meu pai é carne do açougue do Onofre. É compras no Makro, ou no pequeno minimercado do Makita. É avião. É pilotagem. É tomar guaraná de canudo no Aeroclube de Campinas.
(Meu pai também era piloto, aliás.)

Meu pai é a sabedoria de um índio que lhe ensinou a sabedoria das tartarugas. As tartarugas, pelo que lhe ensinou o índio, botam seus ovos longe da margem dos rios no começo de anos em que virá muita chuva. E botam próximos à margem em tempos de seca.

Meu pai é armamento.
É o “trezoitão” (revolver calibre .38mm).
É a pequenina pistola .22mm de bolso traseiro.

Meu pai é a frase:
“Enquanto não comer tudo o que colocou no prato, não sai da mesa!”.

Quando criança, vi meu pai, no sítio do tio Mané (ao ver um jovem rapaz que tremia de frio lhe responder que não tinha agasalho) retirar sua própria blusa e dá-la ao rapaz.
Fazia frio (registrei a cena).

Meu pai era amizade com todos os garçons das churrascarias que não cansava de, semanalmente, freqüentar. Um destes garçons, Barney (apelido criado por ele), chegou ao enterro de meu pai exatamente no horário da missa. A missa era realizada sem a menor conta do jovem garçom, que simplesmente chegou ao local e caminhou à frente do padre até o deitado protagonista. Parou e ficou fitando-o. Fitou-lhe por um tempo, depois saiu, e se foi.
(Registrei a cena).

E meu pai.... por fim, além de ...dormir tarde, ...encaminhar e-mails a todos, ...curtir uma boa piada, ...uma boa cerveja, ...uma boa viagem, ...dentre inúmeras outras coisas, é, também, todas essas pequenas coisas que vemos todos os dias como numa espécie de “déjà vu”. Como numa espécie de memória apagada de momentos sem fim. De momentos sempre novos, mas jamais renascentes.

Pequenas coisas que nos mostram que na vida não há estátuas ou esquecimentos. Não há triunfos ou derrotas. Mas um misto de fábulas, e risos, e circunstâncias, das mais diversas.
Na vida não há nada senão o tempo.

Há o que se viveu e o que não se viveu. E o que se fez com este tempo que nos foi dado.
Nisto resgatamos e perpetuamos a sacralidade de absolutamente todas as pescarias.
Tanto daquelas das quais trouxemos muitos peixes, como daquelas das quais não trouxemos peixe algum, senão lembranças.

Meu pai é:
“E você, não vai comer, pai?”
“O pai já comeu muitas vezes na vida,
agora é a sua vez filho! Come aí!”


Meu pai!
Misto de Coronel Frank Slade, do Perfume de Mulher...
Sonny Corleone...
E alguns palhaços categóricos de Sir Spencer Chaplin...

Simplesmente meu pai.
Hoje sem nome,
Mas de muitas histórias.
(Como muitos pais.)

Meu pai é um lugar.
Uma lembrança.
A queda do Cinema Paradiso.
A canela do Tempero da Vida.

É “Picanha mal passada”.
“Boi berrando”, como ele dizia.

Meu pai, meu paizinho.
Que vejo, absolutamente todos os dias,
Em muitas piadas, em muitos filmes,
Em cães, pescas, carros antigos,
E nos “matambres das costelas”.

3 comentários:

Sonia Novaes disse...

Pois é Fernando...

Seu pai é todo esse encanto que vc descreveu tão bem na sua crônica.
Eu que conheci seu´pai desde criança e quantas vzs brincamos juntos lá na casa dele em Lucélia, embora ele talvez fosse uns anos mais velho que eu, sei lá, era uma pessoa de bem com a vida.
Sempre quando o encontrava , via a alegria estampada nos seus olhos...vivia sorrindo.
Aquele bigodinho preto, me fazia lembrar de seu avô,pessoa tão distinta Dr.Sergio Prado Galuppo, grande amigo de meu pai.
Um dia, encontrei vocês:Maria Silvia, sua mãe, Serginho e voce.
Moramos uma época em São João da Boa Vista, cidade de seu avô Furlanetto, grande escultor.
Sou Artista Plástica, havia sido convidada para um evento e uma homenagem ao grande escultor Furlanetto.
Quando começou o evento, eu estava bem na frente, e derrepente meus olhos se voltaram para voce.
Lembro que fiquei inteirinha arrepiada, primeiro me lembrou Dr.Sergio e depois o Serginho, na hora pensei:Sonia vc está sonhando, o Serginho já está casado e é bem mais velho, e vc não passava de um adolescente...e a seguir vi a Maria Silvia e o Serginho...pronto matei a charada...rsss...
Vc filho do serginho...assim que acabaram as apresentações, a Maria Silvia veio ao meu encontro porque tb havia me reconhecido...foi assim que conheci vc, talvez fosse o ano de 1996 ou 97, não me recordo muito bem...
Como fiquei feliz em reencontrar pessoas tão queridas naquela cidade.
Há pouco tempo atrás, soube da morte prematura de seu pai...senti tanto, que parecia que estava perdendo alguém da minha família.
E hoje sem querer, ao abrir a página da Tania Chavarelli vi a foto do David e acabei chegando em voce.
Coincidência?Talvez...
Pois faz algum tempo que publiquei um comentário sobre vc na página do site do Amaury Teixeira e acabei por receber e-mail da Maria Silvia, me agradecendo...veja Fernando como a vida nos proporciona encontros tão agradáveis.
E vc além de Advogado é também um contador de histórias.
Confesso que achei até engraçado, pois tb tenho um blog onde conto meus "causos" e prosas e gostaria que vc desse uma olhada:www.sonianovaes.blogspot.com
Lá conto tb as minhas histórias de vida...viajo sempre para Minas à trabalho e vou registrando tudo o que me acontece.
Foi um grande prazer falar com voce...espero que possamos trocar algumas experiências juntos.
Um grande abraço...
Sonia Novaes

Anônimo disse...

Fernando
Com atenção e uma mistura de saudade e emoção li sua cronica que retrata na sua visão o Serginho. Este que veio a se tornar seu pai eh uma evolução do meu amigo e protetor no colegio interno em Tupã onde estudamos com o Helinho e outro amigo de Luceília, Ze Carlos, tambem conhecido por Zé Galinha....na eoca eu nem imaginava o pq do de tal apelido. Alem da emoção a que me referi, tambem tive um edacinho importante de inveja; uma vez que gostaria de ter feito o mesmo em relação a meu pai. Alias acredito que todos gostariam de fazer o que vc fez de forma tao delicada. Outro motivo de alegria eh que vi em sua cronica meu amigo Serginho um homem que cresceu s se tornou uma pesso especial nos seus sentimentos e praticas humanisticas.
Adorei
Grande Abraço
Luiz Henrique de Melo Barros
(Luizinho)

Tiago disse...

Não tenho palavras para algo tão bem elaborado.
Puro coração.
Uma das coisas mais bonitas que já li.
Tiago Galuppo.