Segunda-feira, Junho 25, 2007

"TEORIA DA BOLHA"

"TEORIA DA BOLHA"
F.F.G., 23/06/2007.

Como se não bastasse a brevidade dos tempos de farta irrigação e pluviosidade a um coração ou terra, o Complexo de Sísifo torna a reiniciar a estiagem, e a apertar, como um alicate, o lóbulo da orelha direita daquele jovem escritor-fabiano, que subitamente desviou seu olhar da pena, para o canto da sereia; do pergaminho, para o aroma do pólen que lhe penetrou as narinas a alimentar seu canto.

E agora, como um filho que se vê de orelhas puxadas por seu próprio pai em direção à escrivaninha, o desorientado e pueril digitador-fabiano é inevitavelmente retrazido à tinta das pseudonimias mais sarcásticas e menos parnasianas, que simplesmente não conseguem deixar de tentar enxergar o significado ontológico da existência das fechaduras nas portas.

Despenca, portanto, em teclas, aqui, como um trovão, não a
literalidade, mas ao menos a base da essência do que ensinava um velho mendigo das urbanidades interiores paulistas: a Teoria da Bolha.

A teoria em si é simples, saudoso leitor.
Segundo a fábula daquele mendigo (quem não se sabe "louco" ou "sábio"), as bolhas de sabão, invisivelmente rosadas, estaticamente esféricas (ou elasticamente elípticas), e em cuja película ínfima de um produto perfumado qualquer correm, incertos, múltiplos arco-íris invisíveis, seriam os objetos matemáticos mais perfeitos e sublimes que o universo já conheceu.

Exatamente: bolhas de sabão!
Daquelas das crianças mesmo.
Simples bolhas de sabão!
Tão perfeitas, e tão rarefeitas.
Tão inexistentes, e tão sensíveis.
Tão ignóbeis, e tão sublimes.

Sim, o objeto mais sensível e mais perfeito do universo é uma simples bolha de sabão, caro leitor! Daquelas que voam serenas por alguns poucos suspiros antes de "se suicidarem" e sublimarem da dimensão do aqui e do agora.

E o que diz a fábula do mendigo (sem maiores explicações daquele autor, senão uma mera mitologia subliminar quase espartana), é que as bolhas de sabão seriam tão perfeitas e sensíveis, que o que as estoura em verdade não é
"o vento" ou uma suposta "morte natural", mas a inveja dos homens.

Irônico ou insano, de fato! Mas quem, com provas, diria o contrário?
É que mesmo aos homens menos
auto-centrados, mesmo aos mais serenos e mais desgarrados dos pecados capitais (ou das desvirtudes cardeais aristotélicas), seria impossível vencer o desafio final de não invejar o extremismo da perfeição aritimética natural contido numa bolha de sabão.

É a inveja do olhar humano, portanto, quem estoura as bolhas de sabão infantis - acredite o leitor, ou não! E sempre, inevitavelmente.

Ao que parece, pelo que se deduz da fábula, se as bolhas de sabão fossem produzidas por um "cientista-filófoso" dentro de um invólucro hermeticamente fechado (inacessíveis, portanto, aos ventos e aos olhares humanos), ainda assim, elas estourariam!
E estourariam porque a
"inveja humana" (assim conhecida), ao menos neste caso da "bolha e sua perfeição" (dito por aí que também para outras circunstâncias mais), é capaz de penetrar até mesmo o vidro ou a madeira; a distância ou o concreto; o tempo ou o chumbo, a atingir suavemente qualquer bolha, onde quer que ela se encontre.

É que a imperfeição da bolha é tão inversamente proporcional ao opróbrio humano (e portanto, tão catalizadora do mesmo), que basta a um homem o conhecimento da existência de uma
específica bolha de sabão, para que esta passe a ter seus suspiros contados.

Assim, consequentemente, não deixa de ser verossímel a pressuposição de que se houvesse um método de produção de bolhas de sabão que fosse absolutamente
natural e totalmente desprovido de qualquer intenção ou estratégia humana, ao menos em tese, estas bolhas, "invisíveis ao radar humano", não estourariam e sairiam voando ad eternum ao infinito.

A respeito, já não se encontra mais viva uma certa senhora, Dona Glorinha, que fora a primeira funcionária a entrar numa manhã de segunda-feira na fábrica de sabonetes em que trabalhara. Local onde acontecera um acidente numa caldeira de sabão, durante a madrugada do respectivo fim de semana anterior.

Constatou-se, em perícia, pela quebra do relógio de uma máquina, que o acidente ocorrera logo na sexta-feira à noite, após a saída do último funcionário da fábrica, e que, portanto, o enorme volume de bolhas de sabão agarradas ao teto da sala, já "sobrevivia" há mais de quarenta e oito horas.

Assim que Dona Glorinha (pessoa de coração bastante puro, diga-se de passagem) adentrou o local na manhã daquela segunda-feira, principiando por contemplar o esplêndido e perfumado acidente, em questão de uns cinco minutos (pelo que testemunhou, maravilhada, ela própria), as "lindíssimas" bolhas de sabão começaram, pouco a pouco, a estourar (uma a uma).
Dali uma hora, todas as milhares de bolhas do acidente haviam sublimado, restando à Dona Glorinha tão só a limpeza do líquido colorido, que jazia no chão do ambiente.

Mas o presente conto, em si, caro leitor, não pretende furtar propriedade intelectual àquele engenhoso "filósofo-mendigo", pelo que traz, em complemento à fábula, a verdadeira pretensão do presente texto; e, desta vez, de autoria própria: a descrição sucinta dos três prefeitos de uma pequenina cidade do interior brasileiro.

Vamos, pois, rapidamente, à descrição daqueles três.

Eram eles conhecidos por: "Dr. Carlos", "Mirandinha", e "Robertão".

O primeiro: sisudo e arrogante (quando não
"carismático por hipocrisia"). Enfim, "cheio de si". Dizia-se que ostentava seus títulos no cartão de visitas, e que fazia - com isso - questão de dizer que era engenheiro formado pela melhor universidade do país. Muito embora aparentemente honesto (sem ter enriquecido ao passar pela Prefeitura), fazia questão de exibir sua belíssima esposa no clube da cidade!

Já o segundo: carismático, alegre, despertava a confiança e a esperança da população, mas era impossível não reconhecer em si uma perceptível vaidade e discreto abuso daquele poder interior. Degustava uma contida auto-confiança quase arrogante e auto-suficiente. "Mirandinha", apesar de também "aparentemente sério" (o que o levou à vitória nas urnas), com seu nascituro-brilho-natural, conquistava também seus desafetos.

Por fim, o terceiro: Robertão!
Alegre, carismático, também engenheiro, também aparentemente sério (mas com o detalhe de que "absolutamente amado pelas massas"). Em síntese: quase que "sem desafetos" em toda a cidade. Pessoa simples (casa modesta, carro modesto), mas de sorriso franco, simpático, agradável. De fato, com tal histórico, "Robertão" sempre fora um "papel de parede" que não se destacava extremamente em nenhum aspecto específico.
Mas apesar de toda esta "escala cinza", era "boa pessoa", por que não? (Ao menos, ninguém conseguia encontrar vontade para buscar razão para qualquer sustentação em sentido contrário.)
Enfim, "Robertão" era um
"ícone subsidiário" ideal para receber votos, se porventura os outros poderosos se esfaqueacem na luta pelo poder. E assim se deu, quando, circunstancialmente, sem qualquer esforço ou política, Robertão também venceu uma eleição.

Fato é, caro leitor (e não se espante com o que aqui estarás a descobrir), que assim como toda aquela população (e assim como este escritor-fabiano em seus surtos literários insones), o leitor também acaba de estourar algumas bolhas de sabão, se porventura acometido de maior simpatia por este último prefeito em detrimento dos outros dois.

E o assassínio de alguns
objetos matemáticos perfeitos ter-se-ia dado por parte do leitor-homicida-não-doloso precisamente porque "Robertão", "Mirandinha" e "Dr.Carlos", nada mais eram que a mesma pessoa: "Dr. Carlos Roberto Miranda Leite de Araujo", um dos ex-prefeitos daquela pequenina cidade do interior brasileiro.

Tudo se explica na medida em que era conhecido desde a juventude por "Robertão"; em tempos mais recentes (e candidatáveis) por "Mirandinha"; e, após a posse, tão só por "Dr.Carlos".
Nada complexo!

Sim. Alegre, carismático,
engenheiro, "aparentemente sério" (realmente não enriquecera depois da Prefeitura). De fato, não há porque o espanto do leitor! Três em um! Basicamente a mesma pessoa (mas visto pelos mesmos olhos humanos: antes, em vias, e depois do "sucesso").

É
ignóbil - concordamos - mas natural e indesprezível, como se vê, que cresça a um olho humano a antipatia por quem consiga um novo emprego, ou uma linda namorada, ou uma linda casa, ou um lindo filho, ou verdadeiros amigos, ou por quem ganhe na loteria (ou ganhe qualquer coisa; um "presentinho embrulhado", que seja).

Já de há muito se brinca, nos ditos populares, que uma mulher possa ser
gorda, que suas amigas lhe hão de perdoar. Que possa ser feia, que farão o mesmo. Que possa até mesmo ser burra, que terá sempre a solidariedade de suas consortes. Mas que experimente ela ser "linda", para o que desejará este escritor-fabiano entrevistá-la "depois da beleza" sobre sua opinião acerca da "insanidade" ou "sabedoria" daquele mendigo-das-bolhas.

Em suma, com quais das três visões
fabianas (tem se perguntado este ignóbil digitador genocida), é que nossos olhares têm ou não atravessado o vidro, ou a madeira, ou o aço, ou o chumbo, ou a distância, ou o tempo, quando brincamos de "ser crianças" com nossas bolhas de sabão?

Essas bolhas cretinas, caro leitor...
Tão perfeitas, e tão rarefeitas.
Tão inexistentes, e tão sensíveis.
Tão ignóbeis, e tão sublimes.
Todas cheias de si.
Todas tão
carismáticas.
Verdadeiros "brinquedos dos homens".
Tão ínfimas, tão
auto-suficientes.
Que voam, brincam, riem.

E que ainda se vêem na pretensão gloriosa de se suicidarem, magníficas,
ad eternum, ao infinito...



3 comentários:

Israel disse...

reservo-me a comentar o conto após oportuna interpretação, que faremos juntos, via e-mail.

Israel disse...

Digno de um grande escritor, ou digno de um grande orador? Diante deste inovador "conto-tese", ainda me pego com tamanha dúvida. Em todo o caso... Parabéns!

Moon Goddess disse...

Louco ou sábio... insanidade ou sabedoria... now THAT'S what i'm talking about!

Excelente (como se fosse novidade).

"...já foram recusados por duas editoras..." LOUCOS são os que rejeitaram.