"ÁGAPE"
F.F.G., 15/06/2007.
Eu quero uma amiga que não seja nada parecida com a que a grande maioria das pessoas acha que tem que ser.
Que aprecie a boa música (sem rótulos), mas que desconheça os rankings das dez mais ouvidas nas rádios; e que nunca tenha ouvido falar que Ricky Martin nasceu no ano de 1971.
Essa mulher deve ser tão mal informada que simplesmente desconheça que ultimamente as pessoas têm conseguido pagar, por um corte de cabelo, mais do que outras pessoas conseguem ganhar durante um mês.
Na sala de estar dessa amiga deve existir um sofá modesto e de poucos lugares (mas de estofado muito confortável); de onde ela estaria acostumada a assistir aos melhores clássicos do cinema mundial (porque ela gosta de cinema; porque gosta de histórias).
Na sala de jantar dessa mulher deve haver também uma bela mesa de mogno envelhecido (e sempre tratada, desde a avó, ao mais puro óleo de peroba). Mesa provavelmente herdada da família dela (e local aonde se estaria acostumado a acolher, com alegria, a mesma família alegre, e os poucos - mas incondicionais - amigos, que lá celebram vários Natais e Páscoas por ano).
Lá também deverá haver ao menos uma planta e um quadro qualquer (um quadro adquirido por ela em feira livre não pelo artista em si - desconhecido - mas por ser um quadro que ela simplesmente viu e na hora o achou misteriosamente belo).
No lar dessa minha amiga também deverá haver um piano com um lápis e algumas bossas-novas rabiscadas sobre si. Não que ela tenha na música sua profissão ou talento-maior, é apenas a vontade rotineira de extrair alguns sons simples - mas conjugadamente perfeitos - pra regarem os ouvidos da casa pequena (que sorri, do alto, em silêncio).
Ela nunca terá ouvido falar de nenhuma grife, ou marca de perfume, ou trufas, ou foie gras; mas conhece o aroma das flores, sabe quando falta sal, açúcar, ou canela, a algum prato especial; sabe o que uma criança está sentindo (ou quando é hora de dar ou receber carinho).
Eu quero uma amiga com defeitos - pra que seja real - mas que, apesar de seus defeitos, tenha essa "identidade-criança"; uma amiga que veja cavalos-marinhos nas nuvens; e que - embora leia bastante, e por prazer - também não tenha ainda devorado todos os tomos de todas as doutrinas de alguma específica área técnica.
Uma menina que ache graça das coisas bobas, que tenha no sorriso um hábito, e que exploda um riso espontâneo com uma piada simples (porque quase sempre se esquece que, embora menina, o tempo não deixou de lhe fazer mulher).
Quero essa amiga "que goste de flores", e de música, e de histórias, e dos bichos; que ame a própria profissão e que ache bonito homem "tocar violão", ou "homem de óculos" (ou mesmo sem óculos, mas desde que sorrindo); e que dê valor à infância, à família, e à lealdade.
Uma amiga capaz de ficar muito tempo comigo na varanda, conversando por horas; ou em silêncio, quando for o caso deste valer mais que uma conversa.
Uma amiga cuja presença trouxesse calma e harmonia, e na presença de quem se sentiria protegido pela própria mãe ou irmã (mas paradoxalmente com alguma Afrodite em si).
Eu quero ter uma amiga, uma só, que teria um olhar encantador, e muito doce, e muito bom. Daqueles cuja imagem diz mais que mil palavras; daqueles cuja imagem diz quase tudo: o dito e o não dito. Daqueles que não se precisa pedir. Que simplesmente vêm. Não toda hora, mas geralmente uma vez ao dia (em momentos especialíssimos).
Essa mulher teria uma casa pequena e meio antiga, mas com um belo quintal, cheio de árvores. Teria poucas jóias, e roupas, e sapatos; e teria poucas amigas, mas amigas que fossem quase que irmãs para ela.
Ela entenderia de sorrisos sem nunca ter feito teatro; da falibilidade humana sem nunca ter lido Shakespeare. Entenderia do perdão, da determinação, da fé, e do sonho. Entenderia do Eros, do Ágape, da natureza, e do infinito - mas mais por achar esses assuntos muito interessantes, que pelo que as literaturas humanas tiveram até hoje a oferecer sobre os mesmos (embora tenham oferecido muito).
Eu quero uma amiga capaz de me lembrar que estou vivo, e que, apesar dos sabores inevitavelmente insipiados pelos anos, do magma dos vulcões, e do enferrujamento das gangorras, fato é que os balões continuam a subir, e continuam a ser lindos precisamente porque excentricamente idiotas.
E eu quero uma amiga que, ainda mais que todas essas coisas, tenha sonhos, paixão, atitude e espontaneidade, e que seja capaz de me mostrar que sim, que no mundo há fome; capaz de me mostrar que Machado tinha razão (antes e depois); capaz de me mostrar que o futuro não deixa de repetir o passado; mas que - mesmo assim - sinta e me mostre que as fábulas de Sherazade continuam a ser eternamente novas; que o riso do palhaço continua a ser belo; e que não há quase que absolutamente nada melhor do que um "sorriso resgatado por uma memória", "tomar água de cachoeira", "sentir uma bossa-nova ao piano", e "assistir a mais um filme qualquer", seja ele bom ou não.
Como eu queria ter uma amiga assim: uma amiga de Chico, de Neruda, de Vinícius, de Balzac.
Todas em uma, ou simplemente nenhuma em alguém (mas única), pois que se eu a percebesse por perto, no que dependesse de mim, já seria - há tempos - muito mais que uma simples amiga.
F.F.G., 15/06/2007.
Eu quero uma amiga que não seja nada parecida com a que a grande maioria das pessoas acha que tem que ser.
Que aprecie a boa música (sem rótulos), mas que desconheça os rankings das dez mais ouvidas nas rádios; e que nunca tenha ouvido falar que Ricky Martin nasceu no ano de 1971.
Essa mulher deve ser tão mal informada que simplesmente desconheça que ultimamente as pessoas têm conseguido pagar, por um corte de cabelo, mais do que outras pessoas conseguem ganhar durante um mês.
Na sala de estar dessa amiga deve existir um sofá modesto e de poucos lugares (mas de estofado muito confortável); de onde ela estaria acostumada a assistir aos melhores clássicos do cinema mundial (porque ela gosta de cinema; porque gosta de histórias).
Mil e uma noites de clássicos que fez:
da sonhadora, a Sultana;
da história, um hábito;
do hábito, o sentimento;
do sentimento, o Ágape.
da sonhadora, a Sultana;
da história, um hábito;
do hábito, o sentimento;
do sentimento, o Ágape.
Na sala de jantar dessa mulher deve haver também uma bela mesa de mogno envelhecido (e sempre tratada, desde a avó, ao mais puro óleo de peroba). Mesa provavelmente herdada da família dela (e local aonde se estaria acostumado a acolher, com alegria, a mesma família alegre, e os poucos - mas incondicionais - amigos, que lá celebram vários Natais e Páscoas por ano).
Lá também deverá haver ao menos uma planta e um quadro qualquer (um quadro adquirido por ela em feira livre não pelo artista em si - desconhecido - mas por ser um quadro que ela simplesmente viu e na hora o achou misteriosamente belo).
No lar dessa minha amiga também deverá haver um piano com um lápis e algumas bossas-novas rabiscadas sobre si. Não que ela tenha na música sua profissão ou talento-maior, é apenas a vontade rotineira de extrair alguns sons simples - mas conjugadamente perfeitos - pra regarem os ouvidos da casa pequena (que sorri, do alto, em silêncio).
Ela nunca terá ouvido falar de nenhuma grife, ou marca de perfume, ou trufas, ou foie gras; mas conhece o aroma das flores, sabe quando falta sal, açúcar, ou canela, a algum prato especial; sabe o que uma criança está sentindo (ou quando é hora de dar ou receber carinho).
Eu quero uma amiga com defeitos - pra que seja real - mas que, apesar de seus defeitos, tenha essa "identidade-criança"; uma amiga que veja cavalos-marinhos nas nuvens; e que - embora leia bastante, e por prazer - também não tenha ainda devorado todos os tomos de todas as doutrinas de alguma específica área técnica.
Uma menina que ache graça das coisas bobas, que tenha no sorriso um hábito, e que exploda um riso espontâneo com uma piada simples (porque quase sempre se esquece que, embora menina, o tempo não deixou de lhe fazer mulher).
Quero essa amiga "que goste de flores", e de música, e de histórias, e dos bichos; que ame a própria profissão e que ache bonito homem "tocar violão", ou "homem de óculos" (ou mesmo sem óculos, mas desde que sorrindo); e que dê valor à infância, à família, e à lealdade.
Uma amiga capaz de ficar muito tempo comigo na varanda, conversando por horas; ou em silêncio, quando for o caso deste valer mais que uma conversa.
Uma amiga cuja presença trouxesse calma e harmonia, e na presença de quem se sentiria protegido pela própria mãe ou irmã (mas paradoxalmente com alguma Afrodite em si).
Eu quero ter uma amiga, uma só, que teria um olhar encantador, e muito doce, e muito bom. Daqueles cuja imagem diz mais que mil palavras; daqueles cuja imagem diz quase tudo: o dito e o não dito. Daqueles que não se precisa pedir. Que simplesmente vêm. Não toda hora, mas geralmente uma vez ao dia (em momentos especialíssimos).
Essa mulher teria uma casa pequena e meio antiga, mas com um belo quintal, cheio de árvores. Teria poucas jóias, e roupas, e sapatos; e teria poucas amigas, mas amigas que fossem quase que irmãs para ela.
Ela entenderia de sorrisos sem nunca ter feito teatro; da falibilidade humana sem nunca ter lido Shakespeare. Entenderia do perdão, da determinação, da fé, e do sonho. Entenderia do Eros, do Ágape, da natureza, e do infinito - mas mais por achar esses assuntos muito interessantes, que pelo que as literaturas humanas tiveram até hoje a oferecer sobre os mesmos (embora tenham oferecido muito).
Eu quero uma amiga capaz de me lembrar que estou vivo, e que, apesar dos sabores inevitavelmente insipiados pelos anos, do magma dos vulcões, e do enferrujamento das gangorras, fato é que os balões continuam a subir, e continuam a ser lindos precisamente porque excentricamente idiotas.
E eu quero uma amiga que, ainda mais que todas essas coisas, tenha sonhos, paixão, atitude e espontaneidade, e que seja capaz de me mostrar que sim, que no mundo há fome; capaz de me mostrar que Machado tinha razão (antes e depois); capaz de me mostrar que o futuro não deixa de repetir o passado; mas que - mesmo assim - sinta e me mostre que as fábulas de Sherazade continuam a ser eternamente novas; que o riso do palhaço continua a ser belo; e que não há quase que absolutamente nada melhor do que um "sorriso resgatado por uma memória", "tomar água de cachoeira", "sentir uma bossa-nova ao piano", e "assistir a mais um filme qualquer", seja ele bom ou não.
Como eu queria ter uma amiga assim: uma amiga de Chico, de Neruda, de Vinícius, de Balzac.
Todas em uma, ou simplemente nenhuma em alguém (mas única), pois que se eu a percebesse por perto, no que dependesse de mim, já seria - há tempos - muito mais que uma simples amiga.
3 comentários:
Estranho seria se vc não a considerasse mais do que amiga ;)
Que simples, doce, sutil, delicado.
Deixaram este seu blog no meu favoritos aqui em casa, no dia do meu aniversário! adorei, de verdade. acho que foram "as amigas do Adriano"...
passarei por aqui.
texto apaixonante.
agora eu quero um amigo tudo isso!
baccio!
stela
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