Sábado, Setembro 29, 2007

"NEGRO"

"NEGRO"
F.F.G., 29/09/2007.

Num espelho que me olha
Vejo ou sinto
Os belos traços de um olhar:
Meus olhos míopes
Meus olhos negros

Meus olhos míopes estão negros
Meus olhos negros estão míopes
Meus olhos míopes estão míopes
São míopes, vão míopes
Mas apesar de míopes, hoje,
Meus olhos negros estão negros

Negros como o petróleo
Negros como o cheiro do gelo
E negros como o acorde menor
Com quinta diminuta, sétima e nona,
Da sinfonia do pecado e do silêncio

Meus olhos estão negros
Negros como o gosto do vento,
Como a curva de um triângulo,
Como o canto da serpente morta
E negros como o canto de um círculo
De vidro, e sem cor

No ontem do amanhã,
Sinto meus olhos tão negros como nunca
Negros como a ônix bruta e morta
Que o meu tato degusta
Na espeleologia
De uma caverna escura

Tão negros como o aqui e o agora,
Hoje, aos meus setecentos e negros anos,
Meus olhos estão negros,
Ainda mais negros
Do que desde sempre foram
E menos - ou mais -
Do que um dia ainda serão

Minhas mãos, em mim,
Estão umedecidas,
Molhadas, talvez,
Com minha própria vaidade,
Com meu próprio sangue sem cor
Molhadas com música dissonante
E, com ela, os pássaros brancos,
Cantando, mansos, o sabor do fel

Também os girassóis
Exalam um dourado-mouro,
Torpe e fedro,
Que me penetra os ouvidos
A alimentar meu respiro,
Minha força,
Meu sexo,
E demais instintos grises

Hoje, estou míope
Hoje, estou cego
Mais que meu próprio ego
Mais que Miguilim,
Bocelli,
E eu

E tudo o que vejo
São formas
E cheiros
E sons

Pedaços de um quebra-cabeças particular
Que hoje minha nuca enxerga
Já que agora caminho de costas,
Com a flexibilidade manca
De minha própria alma

Amargo é o gosto de minhas próprias íris
Quando as mastigo com meus tímpanos vis

Aonde estão meus olhos?
Caídos, talvez,
Na escuridão do Hades
Dormindo, pueris,
À servidão de Tanatos

Aonde estão meus olhos,
Senão engolidos por mim mesmo,
Com as narinas
De minha língua esquerda?

E lá colocados com a ambidestria
De minhas próprias palmas?
Calejadas pela miopia de minha derme!?
Calejadas pela miopia de meu tempo!?

Aqui, no banho quente
De uma banheira circular de mármore,
No sabor indescritível de um negro e doce café azul,
Ouvindo a Requiem de Wolfgang,
Na quiromania dos bonobos,
É que enxergo, pela primeira vez,
Setenta e sete arco-íris invisíveis

Eu,
Eu cego,
Eu, animal de mim
Nesta verborragia lírica,
Braile, e literata,
Que me sobra

Eu, poeta de mim
Canibal de minhas íris
Escultor e maestro de mim mesmo

Doce miopia que me embaça aos poucos
Que me embaça aos poucos, desde que nasci
Doce miopia que me entrega ao míope
Doce miopia que me entrega ao negro
Necessitas carit legem
E que muda minha linguagem

Em algum amanhã do ontem, não a Medusa,
Mas meu próprio espelho virou pedra
E os pássaros cantam o sabor do mel,
Porque eu,
Homem e animal de mim,
Com meus olhos míopes e míopes,
E negros e negros,
Deixei de ver o espelho que me olha
Mas deixei de ver a mim mesmo,
Embriaguei-me com o vento
E comecei a enxergar

1 comentários:

Anônimo disse...

Incrível, como sempre incrível, tamanha a quantidade de idéias (a fazer arrepiar o leitor) e a forma como as amarra, sem se perder no purismo das letras e das idéias! Seu modo de escrever se aprimora a cada dia mais! Parabéns, meu caro!