Desde muitos séculos atrás, os italianos costumam dizer que o mundo é tão duro, tão árduo, tão complexo, que todas as pessoas certamente precisarão de algo mais do que os próprios pais para lhes garantir a proteção, o afeto, e os aconselhamentos minimamente necessários à superação dos obstáculos que a vida nos proporciona.
Assim é que os “grávidos”, naquela cultura peninsular, têm vivido até hoje a tradição de se escolher padrinhos para seus filhos. A tradição de se escolher padrinhos se possível antes mesmo do parto (se possível, antes mesmo do nome).
E padrinhos que, mais do que meros dirigentes espirituais (conforme prevê a tradição eclesiástica), exercerão, também, a função de segunda paternidade; ou, paternidade subsidiária (substituta); ou, ainda melhor dizendo, paternidade complementar (se se entender, com este termo, que - além de substituta - haja aí uma paternidade também cotidiana e simultânea à paternidade principal; só que com o segundo pater preferencialmente na condução de tutelas e conselhos diversos dos já exercidos pelos genitores).
Em outras palavras, se um dado genitor dispuser, por exemplo, de “amplo berço espiritual e filosófico”, mas viver “vida modesta e de muito suor e trabalho”, é comum que lhe surja à idéia a viabilidade de se escolher, para padrinho do filho, algum compadre com maior habilidade nos negócios, no comércio, e na economia; e isto para que, no futuro - sem perder os valores familiares - o filho venha gozar vida menos sacrificada e financeiramente mais confortável.
Se por outro lado o genitor felizmente já gozar “vida próspera”, faltando-lhe, entretanto, “cultura filosófica e valores espirituais e artísticos”, é que se diz, com a tradição, não ser raro enxergar a conveniência de se escolher um padrinho literato, e se possível sábio, ao filho que nasce. Assim, quem sabe o filho venha aprender a dar maior importância às coisas simples da vida!?
Isto é, com a tradição do apadrinhamento aqui mencionada, o afilhado dispõe a favor de si de mais um mentor em regime de sagrada lealdade e devoção paternais. Usufrui, portanto, desde o nascimento, do melhor seguro que a vida em sociedade possa lhe proporcionar: um amigo incondicional complementar; elementar altruísta esta, a da incondicionalidade, a qual em verdade - não fosse a utilidade da tradição ora comentada - cada ser humano talvez só pudesse encontrar em no máximo dois outros seres humanos: a própria mãe, e o próprio pai.
Feliz daquele, pois, que além de um pai e mãe, dispõe também de um bom padrinho!
É que a sociedade, esta “grande irmã” do Estado e dos homens, lá, desde os primórdios da tradição italiana do apadrinhamento, pôs-se inevitavelmente a enxergar, com seus olhos furtivos e esguios, não só o surgimento, mas principalmente a evolução do raciocínio aqui apresentado.
Foi, aos poucos, essa tal societas, enxergando a viabilidade do apadrinhamento de duplas, trios, pequenos grupos, pequenos clãs, e, tal como o Estado, na criação de órgãos e estruturas internas de auto-preservação, pôs-se, também ela, de modo informal e discreto, a conectar seres humanos através de barbantes invisivelmente invisíveis.
Assim, com um barbante invisivelmente invisível, Francesca, aos dois de febbraio de 1217, em Pietrasanta, casou-se com Carlo (porque os pais de ambos eram amigos).
Assim, com um barbante invisivelmente invisível, Gianlucca, aos vinte e dois anos de idade, e aos quatorze de luglio de 1513, em Bologna, tomou posse como pretor-magistrado daquela pretoria (e não da de Savona: mais distante de onde habitava seu próprio pai, um pretor-magistrado romano).
Assim, com um barbante invisivelmente invisível, Enrico, que se lograria membro de um círculo político-filantrópico reservado, no outono de 1695, em Torino, teve seu destino guinado a pintor e pensador errante, por ter visto seu irmão gêmeo, poucos anos antes, iniciar-se sacerdote.
Assim, com um barbante invisivelmente invisível, é que surgia a cosa nostra, “a máfia” (do árabe ´mahefil´ - refúgio, abrigo) na sua concepção mais filosófica e legítima do apadrinhamento de grupos em prol da autodefesa contra um ranço de Império Romano absolutamente autoritário e totalmente desprovido dos princípios básicos do devido processo e inquérito legais (posteriormente introduzidos no Direito Penal Global pelo Marquês de Beccaria).
“Máfia” esta que, com o passar dos tempos, da ótica de seu contrapeso, principiou também por macular a integridade de seu próprio princípio autodefensivo, ao vir aos poucos se confundindo com os desígnios individuais de muitos de seus "padrinhos", caporegimes e respectivos barbantes invisíveis individuais. Que o diga, com propriedade, a respeito, embora não mais dirá: Giovanni Falcone.
Assim, com um barbante fabularmente invisível, séculos depois, isto é, já nos tempos de hoje, um ator medíocre conseguiu seu papel num filme de ponta, e um cavalo perdeu sua cabeça.
Pouco a pouco, de século em século, é que se tem visto que aquela sociedade de que falávamos (“a grande irmã” do Estado) continuou a enxergar a viabilidade da invisibilidade dos novelos de lã.
Com isso, também aos poucos, em comunhão com o Estado (seu “grande irmão”), viu nascer gradual e espontaneamente do livre-arbítrio-inventivo dos homens: a concepção lógico-semântica da conveniência de se dividir os bairros em clubes; as cidades em bairros; os estados em cidades; o país em estados; e os italianos (onde quer que estivessem) em nação.
Assim também nasceram as academias de estudo e ciência; as facções político-partidárias; os sindicatos; e assim evoluíram, evidentemente, muitos outros círculos maiores, como os círculos -triangulares das maçonarias; os círculos religiosos em suas múltiplas denominações; os círculos profissionais e entidades de classes; os círculos recreativos e habitacionais (inclusive, na atualidade, o homem subcirculando até mesmo seus bairros em condomínios, e seus condomínios em setores).
Sim, desde muitos séculos atrás, os italianos costumam dizer que o mundo é tão duro, tão árduo, tão complexo, que todas as pessoas certamente precisarão de algo mais do que os próprios pais para lhes garantir a proteção, o afeto, e os aconselhamentos minimamente necessários à superação dos obstáculos que a vida nos proporciona.
E com o passar dos séculos, o homem, quase que seduzido pela magnífica cor da invisibilidade das cordas, não conseguiu deixar de enxergar a conveniência de não só apadrinhar seus rebentos, como também a conveniência de se auto-apadrinharem entre si em inúmeros círculos sociais maiores; círculos estes que hoje a complexidade de nossa “grande irmã” sociedade tanto nos oferta.
Hoje, sobrevivida por milênios, a tradição continua a fazer o filho dentista de Antonio trabalhar com Giacomo, dentista. E o filho advogado de Giacomo trabalhar com Antonio, advogado.
Rende culto, esta nossa humanidade, ao poder da invisibilidade.
Rende culto às linhas simétricas da teia de uma viúva-negra; ou à simbiose da ave que gentilmente visita as costas de um búfalo a lhe remover seus carrapatos.
E, em geral, ao contrário do que possa concluir a pueril análise filosófica do neo-ermitão-urbano-pensante, é, sim, produtiva e benéfica, a grande porcentagem das circunstâncias da opção político-social de se filiar a círculos maiores, pois é na união e na congregação dos homens que, de uma forma ou de outra, a humanidade se administra a si mesma, e, principalmente, é a maneira pela qual o conhecimento humano se alastra, no território e no tempo (o que não se daria através do isolamento contínuo).
O homem é o lobo do homem; o homem é o lobo do lobo; e o lobo e o homem são a coruja do homem.
O homem é um animal social (e o homem é um social zoológico).
Unidos, pois, sempre, para a grande festa!
O único paradoxo da comunhão de muitos destes círculos maiores, entretanto, no que toca à elementar da incondicionalidade, mostra-se quando o pai de Francesca, de Pietrasanta, vê a si mesmo diante das visitas domésticas, por vezes simultâneas, de três de seus maiores compadres (cada qual oriundo de um círculo maior distinto) para lhe proporem núpcias entre os filhos; ou quando Giacomo, o dentista, se vê diante de dois amigos com filhos graduados em ciências odontológicas.
Triste de Giacomo, ou deste pai de Francesca, que em qualquer escolha hão mais de perder do que ganhar. E, assim, como num quatrilho, a construção circular começa a se abalar com a primavera de uns se tornando o outono de outros.
Ora, a política humana de se querer abraçar a muitos tendo só dois braços é como que tocar a ponta do indicador na superfície estática e espelhada de um lago em descanso, e, após alguns segundos, em ponto diverso, tocá-la novamente, e novamente, e novamente; produzindo, assim, inúmeros círculos (maiores e menores) sobre a superfície pacífica e sonâmbula de um espelho d´água, que se põe a dançar um belo tango nas margens do Prata.
O ponto exato e a intensidade do toque, por maior que seja o esforço do artista, jamais serão os mesmos; e, sempre, as ondas dos círculos se encontrarão e se auto-desmancharão (ainda que “lá adiante”, no “meio do lago”, “longe do olhar humano”, mas perto do olhar da Física).
É aí que, após toda uma vida, pouco antes de perder a lucidez-racional e começar a entrar no estado alfa do espírito daquele que espera a passagem, um homem de respeito se vê sentado à varanda, contemplando sereno e em silêncio instrospecto a brincadeira doce e infantil de seus netos, e começando a se lembrar, lá do recôndito de suas memórias, que tantas vezes fora convidado a freqüentar (e freqüentou) inúmeros círculos sociais maiores dos mais respeitáveis na sociedade em que viveu.
Vem à memória deste homem de respeito: os colégios em que estudou e os poucos amigos que de lá colheu. Vêm à memória deste homem de respeito: a academia na qual aprendeu sua profissão (e os poucos amigos que de lá colheu). Vêm à memória deste homem de respeito: os sete ou oito círculos profissionais nos quais trabalhou (e os poucos amigos que de lá colheu). Vêm-lhe à memória, também, os três ou quatro corpos docentes onde lecionou (e os poucos amigos que de lá também colheu). E lhe vêm, também, por fim: os tantos, e tantos, círculos sociais político-filantrópicos, recreativos e habitacionais nos quais, de uma forma ou de outra, se inseriu, seja por pouco ou muito (e os poucos amigos que de lá colheu).
E destes poucos, e poucos, e poucos, e poucos, compadres que de cada círculo extraiu, é que este homem de respeito começa a enxergar, por incrível que possa parecer, alguns cordões também eivados de alguma certa invisibilidade.
Fica certa, pois, a conclusão de que, àquela altura da vida, foi em 'pouquíssimos dos poucos', que conseguiu notar indícios quase invisíveis de intrínseca e verdadeiramente pura incondicionalidade. E que “visível” mesmo, aquele homem de respeito só teria a lembrança de haver encontrado tal elementar, conforme se disse no início: em sua própria mãe e em seu próprio pai!
Perceptível, aí, neste instante da vida, a conclusão de algo que os homens vêm percebendo gradualmente em momentos-chave do decorrer de suas existências: a percepção de que toda esta merda deste “utilitarismo pragmático” de per si dos círculos maiores (no qual acabam inevitavelmente se inserindo os homens de respeito), só lhes proporcionaram circunstâncias findáveis e inquestionavelmente volúveis.
Fotografias alegres e perdidas de personagens inexplicáveis!
Ora, um amigo nos testemunha a infância! Outro, a adolescência! Ainda outro, a formatura! Outros tantos acabam por nos testemunhar momentos, quando muito, “delimitados”, de nossas vidas (tenham sido estes momentos bons ou maus).
Aí vem a percepção de que cada amigo (e cada círculo maior) nos conheceu apenas num certo microcosmo, e nunca em nossa abrangência humana maior.
Irônico, pois, que o melhor dos círculos, isto é, o mais próximo da elementar da incondicionalidade, dentre todos os círculos da superfície de um lago tocado por um indicador, venha a ser justamente o menor!
“Círculo menor”: aquele grupo de humanos, em volta de uma mesa retangular, de rostos para nós tão conhecidos e tão envelhecidos pela constante presença diante de nossos olhos.
Aquele pequeno grupo de humanos socialmente “desimportantes”, que não são padrinhos de massas, nem ocupam qualquer podium de grande monta nacional; mas que almoçam conosco todo domingo, seja sorrindo, em piada ou silêncio (mas conosco) da longa tragicomédia monocromática da vida.
Sagrado círculo menor da famiglia!
Aquele grupo de humanos que nunca apareceram na mídia, mas que entrariam de voadora nas costas de qualquer um que pudesse nos fazer mal. Grupo de humanos que por vezes não nos embriagam de orgulho com algumas particularidades de seus erros humanos, humanos que são, humanos que somos, mas que nos despertam o mais profundo e genuíno orgulho da incondicionalidade que - de tão rara, e de tão nobre afeto - simplesmente não tem preço.
E se engana, ao enxergar equívoco na mera opção literária exclusivamente italiana do presente conto, aquele leitor que, do início, já sentiu discreta ponta de carente abandono por aqui se discorrer acerca da tradição do apadrinhamento na bota mediterrânea, e não na tradição do apadrinhamento sino-nipônico, ibérico, anglo-saxão, ou o afro-oceânico.
A merda do “utilitarismo pragmático de per si” de que se falou, não é, nem nunca foi, privilégio inventivo de determinada nação; mas corre nas veias do humano onde quer que ele se encontre.
Assim, também, a sacralidade do circulo menor da família, único ente despersonalizado da criação do gênio social humano que, mesmo se transmutando com o tempo, testemunha a maior parte de nossas vidas, e compreende a maior parte de cada qual de nossos olhares; de cada qual de nossas cicatrizes e de nossos troféus.
Desde muitos séculos atrás, os italianos costumam dizer que o mundo é tão duro, tão árduo, tão complexo, que todas as pessoas certamente precisarão de algo mais do que os próprios pais para lhes garantir a proteção, o afeto, e os aconselhamentos minimamente necessários à superação dos obstáculos que a vida nos proporciona.
E o maior de todos os padrinhos, apesar da importância de todos os demais, é talvez o de menor estatura. Fica, aqui, por fim, a mera intuição fabularmente invisível de que, já no próximo domingo, cada personagem deste conto (inclusive o contra-regra) passará a tocar o espelho d´água do Prata com maior freqüência, e num magnífico tango de uma nota só.
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