Era um sofá velho, morto, como um divã em couro cru.
Um sofá quase que “imbecil”, pode-se dizer, adquirido em um leilão em hasta pública pela Barbearia Nóbrega, dos dourados anos quarenta, da Avenida Francisco Glicério, em Campinas, São Paulo.
Trocou-se-lho, segundo a herdeira e atual proprietária, pela quitação de uma dívida de pouca monta, vindo, assim, ali parar: na sala de espera do local onde a alta sociedade campinense costumava aparar seus bigodes e costeletas sob as lâminas precisas de Seu Estevão.
Dormia lá, no canto, pacato, seja em silêncio ou no ranger de molas, recebendo em sua imbecil insignificância e invisibilidade as mais diversas bundas da cidade de Carlos Gomes.
E como não havia outro ofício àquele sofá senão “especializar-se no espírito das pessoas através de suas nádegas”, é que os anos e décadas foram dando, aos poucos, àquela mobília pacata, a sensibilidade do tato de que goza um cego; passando a ver, aos poucos, a aspereza de seu couro velho e duro psicologicamente transmutada na velutina da pele de um pêssego maduro.
Nunca em território nacional alguém apalpou com tanto deleite - ou pavor, conforme o caso - tantas bundas como aquele sofá!
[…] Um sofá quase que “imbecil”, pode-se dizer, adquirido em um leilão em hasta pública pela Barbearia Nóbrega, dos dourados anos quarenta, da Avenida Francisco Glicério, em Campinas, São Paulo.
Trocou-se-lho, segundo a herdeira e atual proprietária, pela quitação de uma dívida de pouca monta, vindo, assim, ali parar: na sala de espera do local onde a alta sociedade campinense costumava aparar seus bigodes e costeletas sob as lâminas precisas de Seu Estevão.
Dormia lá, no canto, pacato, seja em silêncio ou no ranger de molas, recebendo em sua imbecil insignificância e invisibilidade as mais diversas bundas da cidade de Carlos Gomes.
E como não havia outro ofício àquele sofá senão “especializar-se no espírito das pessoas através de suas nádegas”, é que os anos e décadas foram dando, aos poucos, àquela mobília pacata, a sensibilidade do tato de que goza um cego; passando a ver, aos poucos, a aspereza de seu couro velho e duro psicologicamente transmutada na velutina da pele de um pêssego maduro.
Nunca em território nacional alguém apalpou com tanto deleite - ou pavor, conforme o caso - tantas bundas como aquele sofá!
Continua.
Fernando Furlanetto Galuppo, 19/03/2008.
"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas.
Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz."
(Ferreira Gullar)
"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas.
Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz."
(Ferreira Gullar)
3 comentários:
Canalhíssimo! De tão bem escrito e narrado, merece até um documentário este sofá, dada a sua abundância... de detalhes e vida! Finíssimo o texto. Profundo em sua mensagem, sem deixar de possuir um humor inteligente e simples, agradando, assim, a gregos e troianos, ou seja, as bundas inteligentes e também as imbecis!
Enfim, canalhíssimo!
Desde quando eu o li pela primeira vez, achei curioso o comportamento da inanimada protagonista (que, por ser inanimada, não deveria ter comportamento) e me vinha à mente algo semelhante, mas não sabia o que era...
Depois me veio a luz. Ah, se meu fusca falasse...
O sofá é como o Herbie! rsrs. Muito próximo! É praticamente o sofá do Herbie! rsrs
Canalhíssimo!
NA VERDADE É ATÉ DIFICIL DE EXPRESSAR O QUE SINTO AO TERMINAR DE LER SEUS CONTOS...E POESIAS...ME PERCO NAS PALAVRAS MUITAS ATÉ NÃO SEI O SIGNIFICADO ...MAS PROCURO SABER...ESTOU ADORANDO PERDER AS NOITES LENDO COISAS INTELIGENTES...EM MUITAS ME PERCO NO TEMPO...VOLTO AO PASSADO ...E AS VEZES VOO PARA O FUTURO...(ALEM DE MUITO BELO ...ÉS MUITO INTELIGENTE PARABÉNS!!!)
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