Pés no mármore, mãos nos papéis imperiais,
Pensa, administra, decide se aumenta os impostos.
Ali, solene, Êle: o tirano, o escravo e o homem.
(Presos, os três, em um só corpo).
Ali, sedento, Êle, o sem sede,
Hoje, inevitavelmente apaixonado pela própria imagem,
Refletida na água da fonte da juventude:
De cerâmica, elíptica, sob si.
Ali, o então Marechal, sentado e soldado no trono,
Do alto da Babel mais alta,
De dentro de sua Tróia inexpugnável.
Êle, o monarca único, um semi-deus.
Êle, o sem Deus.
Contemplando, em silêncio, a putrefação
De sua obra disforme.
Contemplação do hoje,
Do outrora, e do outrora.
Fósseis de Sísifo.
(Solenidade diária).
Duas batidas na porta.
'- Tem gente!' - responde.
Num suspiro, e sob pressão,
Emite moeda. Regula o mercado.
Elimina a mazelas sociais.
Exporta os passivos ambientais.
Purifica os rios, o território e a nação.
Carimba os papéis imperiais em cerimônia real.
Levanta-se do trono.
Dá descarga.
E sai, solene, sem lavar a mão.
Fernando Furlanetto Galuppo, 15/11/2008.
"[...]
Mais alto o coqueiro,
Maior é o tombo do côco afinal
Todo mundo é igual
Quando a vida termina
Com terra por cima
E na horizontal"
BILLY BLANCO
1 comentários:
Que obra, heim! O senhor obrou muito no texto? Foi muito difícil dela sair? Nem vou perguntar em que lugar teve inspiração para escrevê-lo, pois é aquela velha e conhecida história: quanto mais mexe, mais fede!
Brincadeiras à parte, seu texto está pequeno, divertido, profundo, fácil de ler e entender e, ao mesmo tempo, possui a peculiar arte (do autor) de levar o leitor à surpresa, transformando no decorrer do texto algo que, à princípio, parece caminhar para um ato de Estado, solene e triunfante (quase ao som de uma marcha imperial) num ato fisiológico, triunfal... a marcha imperial termina com um som de descarga!
Parabéns!
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